A Wieskirche, uma igreja de peregrinação

Há um roteiro que faço sistematicamente, quando visito o mais famoso dos palácios de Ludwig II, um dos marcos mais famosos da Alemanha e destinos turísticos na Europa, ou seja, o Palácio Neuschwanstein.

Claro que há maior probabilidade de realizar tal roteiro na Primavera ou Verão, quando os dias são mais longos, os horários de abertura dos locais são mais extensos, e mesmo assim, convém sair cedo de Munique.

Sim, a proposta é, com partida da capital da Baviera, Munique, e viajando de automóvel, visitar alguns locais quando, o objectivo principal é ficar a conhecer o Palácio Neuschwanstein. Quem disse que num dia só se poderia visitar este deslumbrante e inesquecível palácio?

O início da viagem é o centro de Munique, saindo do centro da cidade segue-se na autoestrada A96 até Landsberg am Leich (uma cidade encantadora e que merece uma visita, mas que não está contemplada neste roteiro). Nessa saída segue-se em direcção a Füssen, para sul  sempre pela B17, até ao primeiro desvio em Steigaden.

O que apresento hoje é justamente o local da primeira paragem ou desvio no percurso, a Wieskirche, igreja de peregrinação do “Cristo flagelado”, cuja morada é Wies 12, 86989 Steingaden.

Em geral as igrejas de peregrinação são pequenas e talvez mesmo, um pouco “insípidas” em termos de riqueza arquitectónica. Esse seguramente não é o caso desta, situada num local recôndito, que  quase pode ser designado como “no meio de nenhures”.

Já século XVIII esta igreja era conhecida em toda a Europa como um lugar de reverência ao Cristo Flagelado, e uma famosa jóia da arquitectura barroca.

Local de peregrinação porquê? Talvez se questionem.

Aparentemente, a 14 de Junho de 1738 deu-se um milagre, e foram vistas lágrimas humanas na face do Cristo Flagelado, o que despoletou rapidamente uma peregrinação de proporções inesperadas.

Por esse motivo, entre 1745 e 1754, Dominikus Zimmermann construiu um local à altura, para a adoração da estátua de Cristo – a igreja de Wies. A igreja, em estilo rococó bávaro, tem anualmente, cerca de um milhão de visitantes, nos quais se incluem um grande número de peregrinos.

Ela integra o Património Mundial da UNESCO desde 1983.

Se por fora pode não parecer nada de extraordinário, preparem-se, porque o seu interior claramente vos surpreenderá.

Esta é a planta do interior da igreja cuja legenda se encontra em inglês.

A capela-mor, a parte mais sagrada da igreja, está separada do resto da igreja por uma barra de comunhão de madeira com embutidos ricamente decorados.

Na imagem anterior pode-se ver que o altar-mor  é rodeado por 6 figuras impressionantes, 2 profetas do antigo testamento – Isaías e Malaquias, e os 4 evangelistas.

O fresco no tecto da capela mor, obra de Johann Baptist Zimmerman é considerado um dos mais bonitos do seu género, e realmente não faltam motivos para isso. A imagem descreve a elevação dos anjos formando a figura de um ‘S’ carregando os instrumentos de tortura da paixão de Cristo, perante a presença de Deus.

O certo é que independentemente da perspectiva em que se aprecia o interior da igreja existe sempre um exemplo do estilo rococó em estado de absoluta perfeição.

A nave da igreja é decorada com 4 impressionantes figuras criadas pelo eminente  escultor Anton Sturm nos seus últimos anos. Elas representam os quatro grandes pais da igreja cuja mente teológica influenciou imenso o cristianismo: Ambrósio de Milão, Jerónimo de Strídon, Agostinho de Hipona e Gregório, o Grande.

O enorme e magnífico fresco da nave central apresenta uma brilhante combinação e simbiose da pintura de frescos com a arte de estuque pois uma prolonga a outra. O fresco tem como ponto focal Cristo ressuscitado. Ele é entronizado no arco-íris, um símbolo do perdão e da aliança de Deus que vão desde os dias de Noé após o dilúvio, através da história do mundo, até ao dia em que Cristo voltará à Terra em toda a sua glória.

Numa das extremidades do fresco encontra-se o trono do ultimo julgamento e na outra a porta para a eternidade.

O tema do Púlpito é o envio do Espírito Santo no Pentecostes, quando Este aparece aos apóstolos na tempestade de Pentecostes para lhes dar o poder de levar o mundo de Deus aos quatro cantos do mundo.

A Galeria do Abade encontra-se do outro lado, paralela ao púlpito e a sua decoração é igualmente muito imponente, interessante e rica.

A  igreja não servia apenas como igreja de peregrinação para o mosteiro de Steingaden mas também, no anexo do lado leste da igreja, como residência de Verão para os abades.

Os altares laterais, um em cada um dos lados da igreja. O do lado direito (sul) é dedicado à “Irmandade do Cristo Flagelado no Wies”. O retábulo pintado por Joseph Mages representa a negação de Pedro de Jesus. As figuras de cada um dos lados são Bernard de Clairvaux (com instrumentos de tortura) e Norbert de Xanten (com custódia) o fundador da ordem Premonstratense, à qual o mosteiro de Steingaden pertencia. A figura feminina que coroa o altar, a “Divina Sabedoria”,  – um símbolo para a sabedoria de Deus em forma humana, Jesus Cristo, cujos ensinamentos os membros da sociedade se comprometeram a seguir.

O altar do lado esquerdo (norte) é o altar da “Irmandade das Pobres Almas” que na época barroca era a sociedade popular por rezar pelos mortos. O retábulo pintado por Johann Georg Bergmüller representa a mulher pecadora que lava os pés de Jesus com as suas lágrimas, os seca com os seus cabelos e os unge com óleos preciosos na festa do fariseu Simão. As duas figuras dos lados do retábulo representam a penitente Maria do Egipto (com crânio e flagelo, os atributos da mais estrita penitência) e da mística da cruz, Margarida de Cortona (com cruz e flagelo). A figura do pai Abraão, em que abraça as almas dos justos a encontrar descanso, coroa o altar.

O órgão de acordo com investigações recentes,  foi construído em 1757 por Johann Georg Hörterich. O orgao possui 42 pontos de ressonância, divididos entre o órgão principal, o órgão do coro, o órgão de solo e os tubos de pedal.

Esta igreja é uma obra de arte repleta de simbologismo, onde nenhum pormenor foi deixado ao acaso, antes tudo forma um conjunto riquíssimo indescritível. As imagens aqui apresentadas ao longo do artigo não fazem o mínimo jus à realidade.

No local, para uma visita conveniente à igreja sugiro veemente a aquisição de um guia da igreja. O meu, serviu também para melhorar imensamente o conteúdo deste artigo.

9 thoughts on “A Wieskirche, uma igreja de peregrinação

  1. obrigada! muito obrigada pela partilha destas viagens tão agradáveis e interessantes🙂
    …é sempre o que murmuro depois de ler cada um dos posts deste blog… só não comento em todos para não ser monótona nem “chata”…;-)

    • Olá Maria Nunes!
      Muito obrigada pelo seu comentário. Nem imagina como fico feliz por saber que aprecia os meus artigos e que os costuma ler.
      É sempre muito agradável receber comentários, sobretudo porque ilustram o que as pessoas valorizam.
      Volte sempre, mesmo que não comente, pois é bom saber que vai acompanhando.

      Beijinho

    • Olá Claudia!!!

      A Wieskirche é uma obra de arte genial. A tal ponto que o seu construtor, Dominikus Zimmerman, construiu uma casa para ele, mesmo pertinho dela, porque não se queria afastar da sua obra prima, e foi onde viveu até aos seus últimos dias.
      Beijinhos

  2. Olá querida amiga, tudo bem? Desculpe-me a ausência: estamos viajando e além da conexao para a internet ser meio complicada (estamos em um lugar onde a internet é praticamente nula), nosso tempo anda bastante ocupado🙂
    O bom é que eu deixei agendado os posts antes da nossa viagem. Assim, na data que programei, os posts entram automaticamente.
    Muito obrigada pelos gentis comentários no meu site.
    Vi que esteve pertinho de mim no vale do rio Reno. Moro em uma destas cidadezinhas medievais às margens deste fantástico rio, mais para perto de Köln.
    Conheço esta linda igreja de seu post, ela faz parte das atraçoes da Estrada Romântica da Alemanha.

    Um grande beijo para vc e nos falamos melhor assim que eu voltar de viagem no dia 08/08. Tudo de bom querida amiga.

    • Olá Angela!!!

      Lembrei-me de si nestas ultimas férias pelo Reno e Mosela, porque sabia que estaria mais para “os seus lados”, mas também por causa daquele seu artigo do ano transacto, em que faz referencia a um artigo que o seu filho tinha visto, numa revista, com os melhores castelos na Alemanha. Na altura um dos que eu disse que queria conhecer e que ainda não conhecia foi justamente o Burg Eltz.
      A estrada romântica da Alemanha tem mesmo muitas atracções nos seus mais de 300km.
      Beijinhos

  3. Pingback: Lago Plansee, ainda que só de passagem | Turista Ocasional

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