Uma questão de matriculas…

Quando viajo pelas estradas alemãs um dos meus passatempos, é identificar a que cidade pertencem os automóveis atendendo à matricula que possuem. (Um sistema semelhante existe na Áustria e na Suiça, pelo que o passatempo é extensivo a veículos oriundos destes países ou a quando viajo por lá).

Mas antes de tudo, convém fazer uns esclarecimentos prévios, nomeadamente em relação às divisões e subdivisões da Republica Federal Alemã  ou simplesmente Alemanha. O país é dividido em 16 estados (Bundesländer), cada um dos quais com independência legislativa em relação a determinados domínios, e três são cidades estado (Berlim, Hamburgo e Bremen).

Cada um desses estados por sua vez (excepto as cidades estado – Stadtstaaten, que estão restritas à própria cidade), é subdividido em regiões administrativas – Regierungsbezirke e estas são divididas em distritos (Landkreise) e cidades livres (Kreisfreie Städte). Por sua vez os distritos tem como divisões administrativas as cidades (Städte) e os Municípios (Gemeinde).

A imagem seguinte, retirada da wikipedia, ajuda a ilustrar justamente estas divisões administrativas.

Por exemplo, o Estado da Baviera possui 7 regiões administrativas (Média Francónia,  Baixa Baviera, Alta Baviera, Alta Francónia, Alto Palatinado, Suábia, Baixa Francónia).

Por sua vez, a Região Administrativa da Alta Baviera (que integra a capital do estado, Munique) possui 3 Cidades Independentes – Kreisfreie Städte e 20 Distritos – Landkreise. 

As 3 cidades independentes são Munique, Rosenheim e Ingolstadt.

Os 20 distritos são os Distritos de: Altötting, Bad Tölz-Wolfratshausen, Berchtesgadener Land, Dachau,  Ebersberg, Eichstätt, Erding, Freising, Fürstenfeldbruck, Garmisch-Partenkirchen, Landsberg am Lech, Miesbach, Mühldorf am Inn, Munique, Neuburg-Schrobenhausen, Landkreis Pfaffenhofen an der Ilm, Landkreis Rosenheim, Landkreis Starnberg, Traunstein, Weilheim-Schongau.

Por sua vez o distrito de Munique (München) é constituído por  2 Cidades – Städte (Garching bei München, Unterschleißheim), 3 Áreas não Incorporadas – Gemeindefreie Gebiete (Parque Forstenrieder, Floresta de Grünwalder e Floresta de Perlacher) e 27 Municípios – Gemeinden (Aschheim, Aying, Baierbrunn, Brunnthal, Feldkirchen, Gräfelfing, Grasbrunn, Grünwald, Haar, Hohenbrunn, Höhenkirchen-Siegertsbrunn, Ismaning, Kirchheim bei München, Neubiberg, Neuried, Oberhaching, Oberschleißheim, Ottobrunn, Planegg, Pullach i.Isartal, Putzbrunn, Sauerlach, Schäftlarn, Straßlach-Dingharting, Taufkirchen, Unterföhring, Unterhaching).

Este aparente longo esclarecimento prévio foi considerado pertinente porque parcialmente reflecte-se na informação patente na matricula de um veiculo motorizado.

O foco da minha atenção durante as viagens, incide assim na primeira ou primeiras letras que compõem a matricula, que indiciam o distrito ou cidade de que é oriundo o veiculo consoante onde este foi registado.

No caso das matriculas da cidade ou distrito de Munique, a primeira componente da matricula é o M, como já referi, mas a segunda componente possui uma letra ou duas distinguindo se o registo  é da cidade de Munique ou do distrito de Munique. Assim se tiver apenas uma letra, pertence ao distrito – Landkreis, mas se tiver duas, pertence à cidade livre de Munique. Algumas especificidades existem também em muitas outras cidades e distritos.

Nesta página da Wikipédia podem encontrar a lista de todas as letras e combinações de letras que correspondem ao primeiro elemento que compõe uma matricula alemã, ou seja, a cidade independente ou distrito (Landkreis) responsável pelo registo, com indicação desta e do estado a que pertence.

Eu não tenho a pretensão de conhecer todas as letras e/ou combinações de letras e saber a que é que as mesmas correspondem (afinal são cerca de 460), mas como em qualquer país há cidades mais carismáticas e relevantes que outras, neste caso, as capitais dos estados por exemplo, e um pouco mais, essas em geral com mais ou menos dificuldade consigo identificar (isto porque muitas são compostas apenas por uma letra o que simplifica sempre, e a correspondência é mais ou menos directa).

Assim caso viagem pelas estradas alemãs e queiram experimentar, aqui ficam essas letras e respectivas correspondências.

Também existem algumas matriculas especiais como as a seguir apresentadas, mas não me lembro de alguma vez ter passado por veículos com elas:

Não posso deixar de referir outras condicionantes em relação às matriculas a titulo de curiosidade.

A primeira é que pagando um valor para o efeito, pode-se escolher as letras e números, caso disponíveis, que compõem a segunda e terceira partes da matricula. Assim a matricula pode ter a inicial do nome, ou um numero que represente algo relevante para o proprietário da mesma.

Isso remete para o segundo ponto, a matricula pertence ao proprietário do veiculo, não ao veiculo em si, apesar de estar afecta ao mesmo. Assim quando um automóvel é vendido, abatido ou não é usado por um período de tempo, o proprietário desregistra a matricula. E a mesma, pode ser reatribuida posteriormente, a outro proprietário e afecta a outro veiculo.

Quando se regista um carro, traz-se nessa altura as duas chapas da matricula  atribuída, para serem colocadas no veiculo.

A gravação da matricula, é assim feita na altura em que a mesma é atribuída.  Um processo célere e eficiente.

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11 thoughts on “Uma questão de matriculas…

  1. Querida Turista:
    Já tinha reparado que as matrículas alemãs eram ,tal como as da Suiça, algo elaboradas. E aqui temos uma explicação muito completa sobre as mesmas. Em Macau, ainda no tempo de administração portuguesa, pagava-se caro matrículas com os nºs de “sorte”, salvo erro era o 9 e o 8. Lembro-me de me terem mostrado um dos carros do Stanley Ho, o magnate do jogo e era assim mesmo. É como nós por cá, achamos piada às capicuas.
    Beijinho.

    • Bom dia!

      Suponho que o mecanismo de construção das matriculas deve ser idêntico ou bastante semelhante quer na Áustria, quer na Suiça, ao alemão. Mas como o alemão é o que efectivamente conheço, não me quis pronunciar sobre os outros dois.

      Sobretudo eu acho que é um mecanismo bem mais eficiente que o português porque permite a reciclagem das matriculas (as chapas das mesmas também devem ser recicláveis, mas não é a essas que me refiro aqui), ao invés de como em Portugal, serem criadas sucessivamente novas matriculas conduzindo a problemas de continuidade das combinações possíveis.

      Beijinhos

    • Olá Babette!

      Eu suponho que o conhecimento só faz sentido se for partilhado ao invés de ser guardado como um tesouro até estar caduco.
      Achei que seria útil escrever um artigo sobre o assunto, pois poderia ser do interesse de alguém, conhecer como funciona cá o sistema de construção de matriculas. Pessoalmente acho que pode ser um bom exemplo a seguir.

      Beijinhos

  2. Cara “Turista”

    Um artigo muito interessante e esclarecedor!

    Numa de minhas visitas que efectuei a uma cidade alemã, chamou-me, também, a atenção as matrículas dos automóveis. Perguntei à guia o seu significado, que me explicou muito por alto.

    Hoje, se tinha algumas dúvidas, elas ficaram, devidamente, esclarecidas, dada a forma explícita como narrou este assunto.

    Beijinho.

    • Boa noite cara Executiva!

      Nem imagina como me deixou feliz, por ter achado o meu artigo esclarecedor, ainda mais por, como referiu, lhe ter suscitado a curiosidade acerca de como era o sistema de matriculas alemãs.

      Folgo em saber que o meu artigo abordou de forma explicita, este tema, e que o possa ter considerado de alguma forma util.

      Beijinhos

  3. «No caso das matriculas da cidade ou distrito de Munique, a primeira componente da matricula é o M, como já referi, mas a segunda componente possui uma letra ou duas distinguindo se o registo é da cidade de Munique ou do distrito de Munique. Assim se tiver apenas uma letra, pertence ao distrito – Landkreis, mas se tiver duas, pertence à cidade livre de Munique. Algumas especificidades existem também em muitas outras cidades e distritos.»

    No mapa indicado no link acima, parece existir uma quarta cidade-estado, chamada Bremerhaven. Ou foi erro na coloração do mapa…?

    Presumo que «cidade livre» ou «cidade independente» sejam a mesma coisa.

    No entanto, fiquei baralhado quando li «Estado Livre Hanseático (…)». O que significa “hanseático”? É um aportuguesamento relativo a uma cidade alemã ou um adjectivo [e, portanto, surgiria sempre um ‘H’ antes das restantes letras]?

    Também achei algo confusa a explicação do número de letras. Se as matrículas podem começar por uma, duas ou três letras, quais seriam as variantes possíveis de Munique [aparte de se considerar como cidade independente (Kreisfreie Städte), distrito (Landkreis) ou apenas cidade (Städte)?

    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b0/Kfz-Kennzeichen_in_Deutschland.svg

    Já agora, se me puder esclarecer, no link acima, as combinações de letras a preto, verde e bordeaux são todas as que podem surgir no início das matrículas alemãs?

    • Boa Tarde!

      – A cidade de Bremerhaven (que se traduz por Porto de Mar de Bremen) pertence à cidade-estado intitulada de Cidade Hanseática Livre de Bremmen (que é composta por duas cidades que como verificou no mapa que referiu não são contiguas entre si).
      – o Termo “Hanseático” associado ao nome de algumas cidades é fundamentado na Liga Hanseática, uma confederação comercial e de defesa constituída por mercadores e as suas cidades mercantis que dominou o comércio marítimo no Báltico entre os séculos XIII e XVII. As cidades que ainda actualmente contêm o termo Hanseático no seu nome oficial, fazem-no por orgulho para com o seu passado e tradição histórica.
      – Em relação às variantes possíveis de letras para as matriculas de Munique (cidade, e o equivalente a concelho/distrito) como muito bem evidenciou, existem algumas excepções à letra inicial “M” que figura na maioria das matriculas. O “AIB” representa a cidade de Bad Aibling e constava nas matriculas registadas até 1973, tendo posteriormente sido substituído por RO (que representa Rosenheim). “WOR” por sua vez consta em matriculas registadas até 1973 e representa Wolfratshausen, tendo posteriormente essa sigla sido substituída por “TÖL” que designa Bad Tölz.
      Um site que pode ajuda-lo a saber o que significa em concreto cada uma das combinações de letras é: http://www.autokennzeichen.info/

      Espero ter esclarecido as suas dúvidas, mas se persistirem algumas, por favor deixe num outro comentário as mesmas, que eu procurarei responder.
      Melhores cumprimentos

      • Caro Turista Ocasional,

        Sendo “hanseático” um adjectivo, deverá surgir sempre um ‘H’ no início das siglas que definem os respectivos estados livres?

        Em relação às matrículas de Munique, fiquei na mesma… ou ainda pior [devido às siglas AIB/RO e WOR/TOL]. Afinal, serão do tipo M, M& ou M&&?

        Não me respondeu quanto às combinações de letras a preto, verde e bordeaux no link ‘Kennzeichen in Deutschland’.

        Obrigado pela sua atenção e paciência.

      • Bom dia!

        Nem todas as cidades estado são hanseáticas (Berlim é outra das cidade estado alemãs).
        Hamburgo e Bremen pertenciam à liga Hanseatica, e por isso no seu nome oficial consta essa denominação, que em nada tem a ver com o facto de serem cidades estado. Existem outras cidades que não são cidades estado e que também são hanseáticas e que tal consta também no seu nome, como é o caso de Lubeck por exemplo (cujo nome oficial é Cidade Hanseática de Lubeck e pertence ao estado alemão de Schleswig-Holstein). Assim a sigla inicial no registo das matriculas de Lubeck é “HL”.

        Quanto ao registo das Matriculas de Munique, as siglas que tem dificuldade em compreender, eu presumo que como aconteceu em outros países, houve reorganizações territoriais (cidades que perderam o grau “de importância” que tinham até então deixando de ser sedes de concelho/circunscrição/distrito (Landkreis) ou que subiram de estatuto passando a serem sedes de Landkreis.

        No caso de Bad Aibling (certamente sede de uma Landkreis até 1973) a cidade e localidades que pertenciam a essa Landkreis, passaram a pertencer algumas à Landkreis de Rosenheim (por isso nessa Landkreis também aparece no mapa que refere a possibilidade AIB) e outras localidades da antiga Landkreis ficaram a pertencer a Landkreis de Munique. Pelo que nas suas matriculas deixaram de figurar as letras iniciais de AIB e passaram a figurar alternativamente as letras iniciais da Landkreis Rosenheim (RO) ou da Landkreis Munique (M).

        Em relação a Wolfratshausen deve ter havido uma fusão de duas Landkreise já que a nova denominação de Landkreis é “Landkreis Bad Tölz-Wolfratshausen”.

        Por questões de localização geográfica de cada uma das localidades, é que no mapa que refere, quando aparecem as delimitações actuais das Landkreise que não correspondem às delimitações que vigoravam até 1973, é que para a mesma delimitação aparecem siglas diferentes, da mesma forma que é possível que para delimitações diferentes apareçam as mesmas siglas.

        – As combinações de letras a preto são as que vigoram actualmente nas matriculas.
        – As abreviaturas nas placas de matriculas a verde são as que pertenciam a uma ex-Landkreis ou a uma cidade Landkreis que foi reassignada, que vigoraram até 1973, e que na sequência da liberalização do indicador desde 2013/07/10 passou novamente ser usada como um símbolo adicional da Landkreis de aprovação competente.
        – As abreviaturas nas placas de matricula que aparecem a bourdeaux no mapa que refere, são aquelas que pertenciam a Landkreis que foram extintas em 1973, e que não voltaram a ser usadas desde então.

        Melhores cumprimentos

      • Caro Turista Ocasional [e incansavelmente Prestável],

        Afinal, as matrículas alemãs são bem mais complexas do que se poderia imaginar…

        Obrigado pelos seus esclarecimentos.

        Melhores cumprimentos.

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